O real digital em revisão: o que o DREX revelou sobre os limites das moedas digitais de banco central
China avança, Índia ajusta, Europa hesita e o Brasil recua. O que está em jogo não é apenas tecnologia, mas a redefinição da soberania monetária e dos limites da privacidade em escala global.
Durante dois anos, o Banco Central do Brasil apresentou o DREX, o chamado “real digital”, como um marco de soberania tecnológica e modernização do sistema financeiro nacional.
Em 2025, porém, o Banco Central anunciou a pausa oficial do projeto, encerrando a primeira fase de testes. A decisão não significou abandono da agenda digital, mas um reconhecimento de que a arquitetura adotada não atendia aos padrões de privacidade, segurança e governança de dados exigidos para uma moeda digital estatal.
A tecnologia funcionou, mas expôs riscos que iam além da eficiência: mostrou-se capaz de rastrear, cruzar e concentrar informações financeiras em escala total.
O BC admitiu, nas entrelinhas, que o DREX havia se desviado de seu propósito original. O “real digital” não se comportava como uma moeda pública, mas como uma infraestrutura de observação financeira contínua, incompatível com o regime de confidencialidade que sustenta o sistema bancário brasileiro.
O que antes parecia apenas uma hipótese crítica, o risco de que a digitalização do dinheiro abrisse espaço para formas de controle econômico, acabou se confirmando nos relatórios técnicos do próprio projeto.
🧠 A plataforma e os desafios de segurança
O DREX foi desenvolvido sobre uma plataforma de registro distribuído (DLT), baseada na tecnologia Hyperledger Besu, um tipo de blockchain permissionada em que apenas instituições autorizadas pelo Banco Central podem operar nós de validação.
A escolha refletia o objetivo de equilibrar descentralização e controle estatal, criando um ambiente seguro e auditável para o sistema financeiro nacional.
Nos testes, porém, o BC identificou limitações estruturais da plataforma para lidar com dois requisitos simultâneos: privacidade individual e rastreabilidade institucional.
O modelo garantiu a segurança criptográfica e a integridade das transações, mas não conseguiu assegurar o nível de confidencialidade exigido pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e pelas normas de sigilo bancário.
A imutabilidade dos registros, característica típica das blockchains, cria um dilema técnico: se tudo é rastreável e permanente, como garantir o direito à exclusão, à anonimização ou à limitação de uso dos dados pessoais? Esse é um ponto sensível, pois o sistema bancário brasileiro opera sob padrões jurídicos rigorosos de confidencialidade.
Outro problema verificado foi o da governança de acesso. Em um ecossistema com dezenas de bancos, fintechs e instituições de pagamento, o controle de quem pode visualizar, consultar ou auditar as transações tornou-se uma variável crítica de segurança.
O Banco Central reconheceu que, antes de ampliar a rede, será preciso construir uma camada de governança de dados e logs imutáveis que permita rastrear o uso da informação sem comprometer o sigilo dos usuários.
Por isso, a infraestrutura atual será substituída. O BC planeja uma nova arquitetura mais modular, com mecanismos avançados de criptografia e provas de conhecimento zero (zero-knowledge proofs), que permitem verificar a autenticidade de uma transação sem expor seu conteúdo.
Essa abordagem, alinhada às experiências do BIS Innovation Hub, busca alcançar o equilíbrio entre eficiência e proteção de dados.
O objetivo, na nova fase prevista para 2026, é que o DREX evolua para uma infraestrutura tokenizada segura, capaz de registrar e liquidar operações entre instituições financeiras, títulos públicos e ativos digitais, mantendo os parâmetros de confidencialidade, integridade e rastreabilidade definidos pelo Banco Central.
Em síntese, a pausa no projeto não é retrocesso técnico, mas um ajuste de arquitetura. O BC compreendeu que nenhuma moeda digital pode prosperar se não for construída sobre uma base sólida de segurança, governança e confiança institucional.
Mesmo com a pausa, a visão de digitalização do sistema financeiro continua.
O Brasil segue comprometido com modernização e inovação, apenas mudou o caminho.
O DREX agora se aproxima mais da lógica de infraestrutura de liquidação tokenizada, semelhante aos projetos que o BIS (Bank for International Settlements) vem promovendo em parceria com bancos centrais do mundo todo (como o Project mBridge e o Project Jura).
Project mBridge: iniciativa conjunta de China, Hong Kong, Tailândia e Emirados Árabes para criar uma plataforma de liquidação multimoeda baseada em DLT (Distributed Ledger Technology), voltada ao comércio internacional.
→ Objetivo: permitir que bancos centrais liquidem operações internacionais sem depender do dólar ou da rede SWIFT.
Project Jura: parceria entre o Banco Central da França e o Banco Nacional da Suíça, que testou a liquidação de ativos financeiros e títulos em redes tokenizadas interoperáveis.
→ Objetivo: explorar como bancos centrais podem emitir representações digitais de moeda de grosso calibre (wholesale CBDC) para liquidação de grandes valores entre instituições.
A nova proposta passa a integrar a tendência internacional de infraestruturas de liquidação tokenizada, onde a tecnologia blockchain é usada para modernizar a compensação e o registro de ativos, não para substituir o dinheiro.
💳 O DREX era necessário? O que o Pix, o Open Finance e a IA fiscal já fazem
Um dos pontos menos discutidos no debate público é que o Brasil já possui a infraestrutura digital mais avançada da América Latina em termos de pagamentos e dados financeiros.
O Pix revolucionou a liquidação instantânea de transações 24 horas por dia, em tempo real e sem custo direto ao usuário.
O Open Finance (antigo Open Banking) interconecta bancos, fintechs e seguradoras, permitindo que o cidadão compartilhe seus dados financeiros de forma segura e padronizada.
E, paralelamente, a IA fiscal usada pela Receita Federal, pelos bancos e pelo próprio Banco Central já garante uma capacidade inédita de rastrear movimentações, cruzar informações e identificar irregularidades.
Esses três sistemas juntos Pix, Open Finance e IA fiscal já compõem uma infraestrutura de observação e eficiência financeira muito superior à maioria dos países que estão testando CBDCs.
Na prática, eles entregam quase tudo o que o DREX prometia: transações instantâneas, interoperabilidade, rastreabilidade e integração de dados.
O que o DREX acrescentaria seria, essencialmente, a tokenização da liquidação um ganho técnico, mas não necessariamente social.
Não há, portanto, uma lacuna funcional que justifique criar uma nova moeda digital de varejo.
Há, sim, um debate sobre quem controla e programa o dinheiro em um ecossistema cada vez mais automatizado.
Por isso, muitos especialistas consideram o DREX redundante: ele não expande o acesso, apenas reconfigura o controle.
Em um país onde o dinheiro já é digital, rastreável e interligado, o desafio não é criar mais camadas de tecnologia, mas definir os limites éticos e jurídicos de uso dos dados que o sistema já coleta.
🌍Bancos Centrais
A trajetória das moedas digitais de banco central mostra que o debate global não é mais sobre tecnologia, e sim sobre poder.
Diversas nações vem testando desenhos distintos de CBDC’s e todos acabaram diante do mesmo limite: a linha tênue entre inovação e vigilância.
O e-CNY chinês utiliza arquitetura centralizada, em camadas, com emissão direta pelo Banco Popular da China e distribuição supervisionada por bancos estatais. A base de dados é unificada e rastreável, e o sistema aplica identificação hierárquica (tiered KYC), na qual o nível de anonimato diminui conforme o volume de transações. É o projeto mais avançado e funcional, mas também o menos compatível com privacidade.
O e-₹ indiano adota um modelo híbrido, em que o Banco Central emite a moeda, mas os bancos comerciais mantêm as carteiras digitais e realizam a autenticação dos usuários. Essa separação técnica tenta preservar a descentralização operacional e reduzir o risco de rastreamento central. Os testes mostraram viabilidade, mas a infraestrutura de dados ainda carece de padrões robustos de anonimização e interoperabilidade entre carteiras.
O euro digital, em desenvolvimento no Banco Central Europeu, é baseado em arquitetura de duas camadas (two-tier model), com validação distribuída entre o BCE e bancos participantes. O foco está na criação de um modo offline, capaz de permitir transações privadas entre usuários sem registro imediato em banco de dados central. O projeto depende de soluções criptográficas avançadas — como blind signatures e zero-knowledge proofs — para garantir que a moeda digital europeia não quebre o princípio jurídico do sigilo bancário.
O DREX brasileiro, implementado em blockchain permissionada (Hyperledger Besu), testou contratos inteligentes e tokenização de ativos. A infraestrutura funcionou, mas revelou vulnerabilidades no controle de acesso e na segregação de dados. O modelo de nós validadores institucionais mostrou-se eficiente para liquidação, porém insuficiente para garantir anonimização e compatibilidade plena com a LGPD.
Todas as experiências, em graus diferentes, demonstram o mesmo dilema: quanto mais eficiente e rastreável a infraestrutura monetária, menor o espaço para privacidade e autonomia individual, redefinindo a natureza do dinheiro, que passa de meio de troca para infraestrutura de informação.
Essa constatação ajuda a explicar a postura norte-americana.
Enquanto outros bancos centrais testam modelos complexos de privacidade, interoperabilidade e anonimização de dados, os Estados Unidos observam e influenciam o processo à distância.
O país já controla a infraestrutura sobre a qual o dinheiro digital global circula.
Redes como SWIFT, CHIPS e sistemas correspondentes operam sob jurisdição americana que, portanto, não precisa criar uma CBDC doméstica para exercer poder monetário.
Ao contrário dos demais, o modelo americano não busca reinventar a moeda, mas preservar o domínio das regras que estruturam o sistema financeiro internacional.
🧭 O que está realmente em disputa: poder, dados e soberania monetária
O debate sobre moedas digitais de banco central ultrapassou o campo da tecnologia.
Hoje, o que se disputa não é o código, mas quem define as regras do dinheiro digital e, portanto, quem detém o poder de observar, condicionar e controlar o fluxo de valor dentro e fora das fronteiras nacionais.
O Brasil, ao se alinhar ao BIS e não à China, fez uma escolha diplomática, não apenas técnica.
Optou por manter interoperabilidade com o modelo ocidental de governança financeira, preservando autonomia regulatória e transparência institucional, em vez de aderir a um ecossistema mais opaco de centralização estatal.
Embora o DREX tenha sido apresentado como iniciativa pública, ele dependeu de tecnologia privada desde o início.
Empresas como Microsoft, AWS e instituições financeiras participaram ativamente dos testes, hospedando nós de validação e desenvolvendo contratos inteligentes.
Isso cria um paradoxo: mesmo uma moeda “soberana” pode operar sobre infraestruturas estrangeiras, sujeitas a regimes jurídicos fora do alcance brasileiro.
Garantir que a futura infraestrutura tokenizada do Brasil seja auditável, controlável e segura sem depender de fornecedores externos é condição para qualquer retomada do projeto.
A digitalização monetária transforma o dinheiro em fluxo de dados pessoais sensíveis.
Cada transação carrega informações sobre identidade, consumo e comportamento financeiro.
Mas o ordenamento jurídico brasileiro ainda não tem uma norma específica sobre governança de dados monetários.
A LGPD, o Marco Civil da Internet e a Lei do Sigilo Bancário cobrem partes do problema, mas não se aplicam integralmente a sistemas distribuídos e programáveis.
Sem uma lei própria, o DREX (ou qualquer sucessor) operaria num vácuo normativo, em que nem o cidadão, nem o Estado sabem quem pode acessar ou auditar o dinheiro digital.
Os bancos comerciais têm motivos legítimos para temer as CBDCs.
Se o cidadão pudesse manter depósitos diretamente no Banco Central, isso enfraqueceria o sistema bancário tradicional, reduzindo liquidez e encarecendo o crédito.
Em cenários de crise, haveria risco de migração em massa de depósitos, provocando instabilidade. O FMI e o BIS já alertaram para esse efeito colateral: quanto mais direta for a relação entre o público e o Banco Central, maior o risco de desintermediação financeira.
🇺🇸 Estados Unidos – o controle pela recusa
Os Estados Unidos decidiram não avançar na criação de uma moeda digital de banco central (CBDC). Mas a recusa é estratégica, não técnica. O país já exerce poder monetário e informacional por meio das infraestruturas globais que domina — e que sustentam praticamente todas as transações internacionais.
O dólar continua sendo a principal moeda de reserva do mundo, reforçado por sistemas de compensação e liquidação sob jurisdição americana, como SWIFT, CHIPS e Fedwire.
SWIFT
O SWIFT é uma rede global de mensagens que permite que bancos e instituições financeiras comuniquem instruções para transferir fundos entre si.
Não movimenta fundos nem oferece liquidação — sua função é mensagens padronizadas entre instituições.
Conecta mais de 11.000 instituições em mais de 200 países/territórios.
É usada para transferências internacionais de alto valor, e desempenha papel central no sistema de pagamentos global.
Através dela, bancos americanos ou sob regulação americana podem monitorar, restringir ou condicionar transações que dependem da rede global.
CHIPS
O CHIPS (Clearing House Interbank Payments System) é um sistema privado dos EUA para liquidação de transferências de alto valor em dólares.
Funciona via netting, ou seja, agrupa/dá “net” ou compensação líquida, sso significa que, ao longo do dia, o sistema agrupa milhares de pagamentos entre os mesmos bancos e calcula apenas a diferença final (ou seja, o saldo líquido) que cada um deve pagar ou receber, o que reduz requisitos de liquidez para os participantes.
Embora privado, atende ao mercado de grandes bancos e cobre uma parcela muito significativa das transações USD de alto valor.
Combinado com o Fedwire, o CHIPS faz parte da infraestrutura crítica de pagamentos em dólares.
Fedwire
O sistema Fedwire é operado pelo Federal Reserve e destina-se à liquidação em tempo real de grandes transferências em dólares entre bancos que mantêm conta no Fed.
Type: RTGS — Real Time Gross Settlement. Cada transação é processada individualmente e liquidação é final e irrevogável ao crédito.
Usado para operações críticas como transferências inter-bancárias, liquidação de títulos ou pagamentos regulatórios.
Em 2023, por exemplo, o valor médio diário de transferências foi de aproximadamente US$ 4,3 trilhões.
Por que esses sistemas importam para a análise de CBDCs
Juntos, SWIFT, CHIPS e Fedwire compõem a espinha dorsal da liquidação e comunicação de grandes valores em dólares — nacional e internacionalmente.
O domínio desses sistemas concede aos Estados Unidos visibilidade e controle indireto sobre o fluxo global de dólares, mesmo sem precisar emitir uma CBDC doméstica.
Em contexto de moedas digitais, qualquer país que use o dólar ou que necessite da interoperabilidade global acaba sujeito — direta ou indiretamente — aos padrões e ao “ônus” desses sistemas regulados/monitorados pelos EUA.
Essas redes permitem rastrear fluxos financeiros, aplicar sanções e impor padrões de compliance que moldam a política monetária global. Na prática, os EUA já operam uma forma de CBDC global informal, sem arcar com os custos ou os riscos políticos de uma moeda digital doméstica.
Além disso, os Estados Unidos contam com um ecossistema digital próprio: as stablecoins lastreadas em dólar, como USDT (Tether) e USDC (Circle).
Esses ativos regulados, auditados e amplamente utilizados funcionam como versões tokenizadas do dólar, permitindo transações digitais internacionais com liquidação quase instantânea.
O USDC, em particular, é emitido sob supervisão americana e integra plataformas globais como Visa, Coinbase e PayPal, consolidando o papel do dólar como moeda digital de fato, ainda que fora do balanço do Federal Reserve.
A criação de uma “CBDC oficial” exigiria debate público sobre privacidade, papel do Federal Reserve e limites da vigilância estatal, temas sensíveis num ambiente político polarizado.
Por isso, Washington preferiu preservar o status quo: estudar, monitorar e influenciar os parâmetros técnicos das moedas digitais estrangeiras, garantindo que todas continuem interoperáveis com o sistema do dólar.
Enquanto a China busca autonomia tecnológica com o e-CNY e a Europa projeta o euro digital, os EUA mantêm o papel de árbitro silencioso: controlam as regras, supervisionam as conexões e ditam o ritmo da inovação alheia.
O Federal Reserve afirma oficialmente que não lançará uma CBDC sem autorização expressa do Congresso, e o projeto “CBDC Anti-Surveillance State Act” reflete a resistência política à centralização digital da moeda.
🔚 Conclusão — O preço da pressa digital
O DREX mostrou que a inovação financeira não se sustenta sem confiança institucional.
A decisão do Banco Central de encerrar a primeira fase do projeto não representa um fracasso técnico, mas um ato de prudência: o reconhecimento de que uma moeda digital estatal só é legítima se proteger, antes de tudo, os direitos e a privacidade de quem a utiliza.
O Brasil fez o que muitos países ainda hesitam em fazer — parar antes de cruzar a linha.
Ao detectar os riscos de rastreamento total e as limitações da arquitetura de privacidade, o BC preservou sua credibilidade e evitou criar uma infraestrutura de controle incompatível com o regime democrático.
Num mundo em que eficiência tecnológica frequentemente se confunde com vigilância, essa decisão vale mais do que qualquer avanço de código.
Há também um componente econômico.
A manutenção de uma rede blockchain estatal com padrões de cibersegurança, redundância e conformidade regulatória exigiria investimentos contínuos e altos custos de operação.
A pausa permite redirecionar esforços para áreas de inovação mais seguras — como a tokenização de ativos e a interoperabilidade bancária — sem comprometer recursos públicos em uma infraestrutura ainda imatura.
O caso do DREX deixa três lições centrais:
Governança de dados é soberania. Nenhum sistema monetário digital é neutro — quem controla a informação controla o dinheiro.
Privacidade não é obstáculo, é condição. Projetos de CBDCs precisam nascer com o princípio de privacy by design, não tentar remendá-lo depois.
A confiança é o verdadeiro lastro. Sem transparência, auditoria plural e limites claros de uso, a moeda digital deixa de ser instrumento de liberdade econômica e se torna ferramenta de controle.
Em síntese, o Brasil não abandonou o futuro — apenas recusou o atalho perigoso.
Enquanto o mundo corre para digitalizar suas moedas, o país deu um passo atrás para garantir que, quando avançar novamente, o faça com bases sólidas.
Porque a lição mais valiosa do DREX é simples e duradoura:
sem salvaguardas jurídicas e institucionais, toda inovação financeira corre o risco de se tornar uma inovação de vigilância.

